quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Vênus, Eros e o Amor.

O amor dura alguns anos, a hipocrisia a vida inteira. Quando o amor morre numa relação alguém sofre porque para um dos dois o fantasma da relação continua viva, individualmente, embora já não seja recíproca, ou seja, já não há mais relação, mas obsessão, porquanto o liame se partiu : o amor só é possível de se realizar mutuamente, quando há correspondência; essa energia é recíproca, não ocorre tensão fora do campo da reciprocidade. Os antigos simbolizaram essas polaridades com o deus Eros, para o amor masculino, e a deusa Afrodite, grega, ou a Vênus, romana, para a polarizar o eterno feminino que se espressa na mulher. Para os romanos, Amor era um deus filho de Vênus. De fato, a energia do amor nasce e se fortalece antes na mulher, que escolhe, do que no homem, que espera ser escolhido, coroado rei do amor de sua deusa Vênus.Os antigos faziam dos deuses os conceitos com os quais representavam as energias mais poderosas que movem a natureza e o ser humano. Toda a psicologia, ou seja, a mente humana foi fundada por esses deuses que a simbolizavam exteriormente e que, passado o tempo, introjetaram-se no interior do ser humano, nos seus gestos e ritos e fundamentaram essa imensa constelação de símbolos e signos que forma a mente humana. Essa mente pode ser lida nos trágigos gregos, como Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e na comédia de Aristófanes, bem como em Shakespeare e Goethe, no Dr. Fausto, em Hamelet, Rei Lear, Romeu e Julieta, enfim, em toda obra poética carregada de símbolos que são os verdadeiros atores por trás dos signos.A psiquê, primeira voz, primeiro violino de voz que faz a psicanálise, é , antes de tudo, antes dos pensamentos freudianos, uma deusa grega, fato que demonstra que a mente humana é uma representação mitológica, alegórica, um vasto campo de semiótica e semiologia.O amor, energia (deusa ou deus)que se esgota numa tensão, morre quando a tensão é quebrada por um dos indivíduos. Então ocorre um "curto-circuito" e os indivíduos que antes se correspondiam por meio dos elementeos que se ligavam através dessa tensão, nessa comunicação, comunhão, ao menos um dos indivíduos não partilha mais da tensão, desliga-se dela, como um fio da corrente elétrica; alguém quebra o vínculo num tempo antes do outro e o desvinculado fica sofrendo. Consciência é dor, a morte é o fim das dores, por isso quem continua amando, ou obcecado pelo objeto do amor cuja tensão que os ligava se partiu, sofre com a ruptura que, para o outro, que rompeu o liame, nada mais significa, porquanto o amor nele é finado, e o que é morto já não desperta qualquer consciência. Consciência é dor, dor é vida, vida é amor. Deus que continua reencarnado em filhos e filhas.